Mixframe 6 Felipe Sá

Mixframe #6 não se abate e mistura indie, pop, rock, neotropicália, hip hop com… política

No carrossel da coluna de julho, os estilos musicais variam; em comum, muitas mensagens carregadas de significado
No carrossel da coluna de julho, os estilos musicais variam; em comum, muitas mensagens carregadas de significado

Em nova temporada, a Mixframe traz para os fãs da boa música alternativa uma coleção de emoções. Da melancolia à energia dos sons eletrônicos sintetizados, da organicidade ao futurismo pasteurizado. Tudo para o deleite dos ouvidos adictos a novidades.

E a gente começa falando sobre obscuridades. Laurel Halo, nome adotado pela musicista Ina Cube, que nasceu e cresceu em Ann Arbor, no estado do Michigan (EUA), mas baseou sua carreira em Berlim. Em seu terceiro álbum lançado pelo sólido selo britânico de música eletrônica Hyperdub Records, Laurel traz como principal influência o concretismo poético de Haroldo de Campos e sua principal característica de comunicar com palavras que formam imagens. Em uma busca constante por inovações, que o cenário eletrônico impõe, a cantora e compositora consegue transportar os conceitos concretos em suas composições com a ajuda da fantasmagórica cantora pop-collage britânica Klein, processando palavras além do entendimento e desfocando-as para criar uma espécie de fonema que ilustra com sons. “Dust”, o álbum em questão aqui, é estranho, mas alterna estranheza com faixas pinceladas cheias de harmonia e melodia. “Moontalk”, música escolhida para figurar na lista desta Mixframe, é, analisando o resultado, uma faixa étnica com influência da África Ocidental, mas essa não é a sua principal peculiaridade (são muitas!). Para dar seguimento à jornada de criar estética com palavras, a artista também conta com a ajuda de Hatsune Miku, uma vocaloid virtual dublada por um sintetizador de voz e encarnada na imagem de uma menina de 16 anos com cabelos verdes amarrados em duas longas marias-chiquinhas ao bom estilo mangá (gente, é muita magia junta).

Em “Home Counties” — uma gíria britânica para denominar a população que povoa o entorno da cidade de Londres (ou, como muitos preferem, para chamar suburbanos e periferia) —, o trio de indie pop britânico Saint Etienne canta histórias do dia a dia de seu lugar de origem e seus personagens. A intenção de valorizar esse lugar como um retiro para seus habitantes é muita louvável e sedutora, mesmo nós mesmos sabendo que a vida no subúrbio pode ser chata para a maioria dos habitantes de uma metrópole como Londres. Sarah Cracknell e Bob Stanley, porém, com sua tentativa de atingir a perfeição da música pop, trazem mais alegria a esse tédio. Musicalmente, eles mostram uma evolução no padrão de construção já estabelecido pelo grupo, no qual um tema específico é criado, e a musicalidade, trabalhada em cima deste conceito. “Home Counties” foi produzido por Shawn Lee, multi-instrumentista e produtor musical que atua como baterista em várias das 19 faixas, trazendo mais organicidade à sonoridade sintetizada que é marca registrada da banda. Grooves infecciosos, a sensualidade de Clonazepam na voz de Sarah, ótimas letras e muita trip do bem tornam esse último trabalho algo difícil de não gostar.

Salto para o pop

Há uma busca frequente pela popularização, atualmente, e a bola da vez na passagem indie-to-pop é a banda americana Portugal. The Man — pausa para falar sobre a escolha desse nome: segundo os integrantes, seu intuito é criar um personagem que representasse a banda, e a escolha do nome de um país alude a um grupo de pessoas, criando uma sensação de pertencimento a algo (clique aqui para ver um meme da Chloe).

Em uma busca constante por aperfeiçoamento, a turma da banda (John Gourly, Zach Carothers, Kyle O’Quin, Jason Sechrist e Eric Howk) deixa parte de sua identidade indie psicodélica para se aventurar no vasto e lucrativo universo pop. Sonoridades eletrônicas do mainstream e refrões enérgicos de atitude pop são adicionadas em faixas como “Noise Polution – Version A, Vocal Up Mix 1.3”, escolhida para esta edição da nossa lista mensal de novidades, que conta com as participações de Mary Elizabeth Winstead e Zoe Manville. Inspirado pela descoberta do bilhete que dava acesso a Woodstock, pertencente a seu pai, John, o vocalista, sentiu a necessidade de criar um álbum com o tema para ter a oportunidade de falar sobre questões sócio-políticas atuais que são muito semelhantes às da época em que o festival aconteceu. Mas, como em toda banda em momento de transição, as mensagens podem ficar turvas, o que é até interessante neste caso, criando um clima fanfarrão para toda a história. “A banda aborda o ativismo sem coração, adicionando uma dose saudável de sarcasmo…”, diz Josh Goller em trecho do review deste último trabalho da banda feito para a revista digital “Slant Magazine”.

Com nítida influência da Tropicália de Caetano, Gal, Gil e Betânia, Chicano Batman é uma banda de Los Angeles composta por imigrantes (ou descendentes) latinos que ainda surfa na onda dos revivalismos. Como se parecesse selada em um momento do passado, a música que Bardo Martinez, Carlos Arevalo, Eduardo Arenas e Gabriel Villa fazem lembra aqueles discos antigos que você ouvia na casa do seu tio cool. E é aí que entra a consistência em insistir no passado, o saudosismo é o sentimento mais nutrido atualmente — ups, só não supera o amor, por que é ele quem motiva toda essa elucubração que é viver, migxs.

O que o grupo traz de atual, porém nada novo, é o forte ativismo político-social. Musicalmente, os rapazes alternam faixas de melancolia indie hipster com outras completamente soul, unido tudo com ótimos sintetizadores analógicos. O resultado de “Freedom is Free”, seu último álbum lançado, é o disco perfeito para você ouvir do começo ao fim num sábado de inverno ensolarado.

E parece que há mais bandas descobrindo a máquina do tempo que visita o passado. “Days of Yesterday”, novo álbum da banda californiana (Los Angeles possui o cenário de pop/rock revivalista de garagem mais ativo dos Estados Unidos) Mystic Braves é um registro que mais parece vindo de um show do Golden Nugget na década de 1960 — e a gente sabe quando uma banda ou música revivalista é boa quando a ouvimos, sem saber sua origem, tendo a certeza de que essa vem do passado. A chave para ser marcante e encontrar uma audiência em uma cena completamente saturada é encontrar algo que torne sua banda excelente. Mesmo os “bravos místicos” tendo ocupado um lugar intermediário entre as bandas mais conhecidas da região, seu último trabalho não diz que a banda está chegando perto dessa almejada excelência, mas afirma sua capacidade de reproduzir fielmente a surf music sessentista como qualquer outra já ouvida por este que vos escreve.

Indo na contra mão do revivalismo de reprodução fiel, Curumin, cantor e compositor paulistano, mistura em um caldeirão todas as referências e estilos que conhece para criar algo novo e atual. “Boca”, seu último trabalho de estúdio, conta com a produção de Zé Nigro, Lucas Martins e do próprio artista e mostra muita maturidade e criatividade com seus sintetizadores a postos para a batalha futurista em busca de novas sonoridades, porém com aquela cara vintage cool. E, olhem só, ele também traz na cartola muito ativismo político e filosofia ao inserir trecho de “O Burguês Que Deu Errado”, poema de Beto Bellinatti, em seu compêndio. Também movido pelo intuito de levar informação para uma sociedade aparentemente perdida no limbo das inconsistências, Don L mostra a sua já ácida maneira de rimar e reinventar o rap nacional. Em “Cocaína”, o rapper conta com riqueza de detalhes a trajetória do uso da substância química. Do início fugaz, passando pelas pequenas corrupções como atos sexuais escusos, até o violento fim nas ruas. É um chamado à integridade da saúde mental, mas também é arte bem produzida. Musicalmente, o padrão opaco de produção de hip hop dá lugar às moduladas harmonias de guitarra, criando uma atmosfera dramática, assim como é a coca.

Ruídos analógicos sincronizados, socos de grave e melodias osciladas percorrendo seus miolos à vontade. “Creature Comforts”, o penúltimo single lançado para divulgar o novo álbum do coletivo Arcade Fire, está encurralada nos anos de 1980. E a inspiração obtida aqui é David Byrne, mesmo que Mark Almond tente umas aparições em alguns momentos – reparem, ao ouvir, que a vivacidade com o vocal de Butler é homogênea a de Byrne em suas apresentações junto ao Talking Heads. Aliás, se a gente comparar “Creature Comforts” com “Everything Now”, single anterior, dá pra ver claramente uma timeline de influências que começa com Bowie nos anos de 1970 e deságua em Per Stop Boys nos anos 1990. Sortudos são os que já podem contar bem a história deste próximo trabalho da banda, mas eu arrisco o palpite que este vai ser um bom disco para ouvir celebrando.

As irmãs superdotadas do trio Haim não decepcionam nunca. Na primeira vez em que elas apresentaram ao público “Little Of Your Love”, faixa que dá nome ao álbum homônimo, no programa “Saturdy Night Live”, tudo correu bem, e elas ainda arrancaram um coro do público. Como todos os gênios, as meninas chegam perto da perfeição de sua música matizando camadas que dão a sensação de estarem duplicando à si mesmas para criar um resultado de big band e transparecer o apreço pelos exclamativos (hein!). O clima dançante é o ímpeto físico que dá aquela boa salpicada de pimenta no caldo todo. Este trabalho é um claro flerte com a música country e as meninas confirmam isso num vídeo-homenagem feito em seu Instagram onde elas performam “Man! I Feel Like a Woman”, da diva Shania Twain.

Aqui, vocês ainda encontrarão London Gramar com a melodramática “Non Beliver”; o pop star coreano Xin Seha com remix do mestre do miami bass The Egyptian Lover; Peaking Lights com a setentista “Conga Blue”; Phoenix inovando em “Lovelife”; OMD (Orchestral Manouver In The Dark) com a engessada no tempo “Isotype”; Vince Staples e a elogiada “Big Fish”; Sugar Candy Mountain com a nada diabólica “666”; Zoot Woman com a participação ilustre de Kylie Minogue em “Still Like the First Time”; Kasabian e a insana “Bless This Acid House”; Liam Gallagher com a balada “Chinatown”; Son Lux mostrando sua abdução alienígena em “Dangerous”; e muito mais… São 31 músicas na Mixframe #6, uma para cada dia de julho. Mês que vem eu volto com minha playlist de novidades.

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PLANTÃO

Brilho, brilho e mais brilho. Caros leoninos, vejam o que @aroundandabout2 diagnosticou para vós: https://t.co/InAVF7nbCO.

Da onde vêm as fake news do @arcadefire? Alessandro Soler, editor do #TNFP1980, te conta: https://t.co/5EYFuDP1Xy

Ouça e leia a #Mixframe de julho em: https://t.co/zTYnoriLpY. Música do dia: https://t.co/XQ86eX0tKi (by @MysticBraves). #gotamix #TNFP1980

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