Trans XXX Carlos André Mack

É transgênero, travesti ou transexual? Transcenda a todos estes rótulos

Psicólogo expert em gêneros aceita classificações mas provoca: "não existe definição rígida"
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Roberta Close, Rogéria, Caitlyn Jenner, Laverne Cox, Thammy Miranda, Lea T, Carol Marra, Laerte, Chaz Bono e Andreja Pejic: você provavelmente já viu ou ouviu alguns desses nomes por aí. Além de se destacarem em suas profissões, um aspecto é sempre enfatizado nas notícias sobre essas pessoas: suas identidades de gênero trans. As transidentidades estão em alta na mídia, mas suas diferentes representações frequentemente geram dúvidas. Para compreendermos a construção da subjetividade e a expressão psicossocial de gênero dos indivíduos (trans ou não), devemos inicialmente estabelecer uma diferença básica entre identidade de gênero e orientação sexual.

Identidade de gênero diz respeito ao gênero com o qual você se identifica enquanto sujeito. Você pode ser transexual, travesti ou transgênero se você se identificar com algum gênero diferente do designado no seu nascimento, e cisgênero se o seu sexo biológico corresponde à sua identificação de gênero. Pode, também, preferir não se definir a partir de qualquer gênero.

A orientação sexual indica o gênero do sujeito que te atrai sexual e amorosamente. A partir de sua identidade de gênero e da identidade de gênero do seu objeto de desejo, você pode ser convencionalmente classificado como heterossexual, homossexual ou bissexual.

Essas duas ferramentas de definição podem se cruzar de diversas formas. Passe o olhar novamente sobre aqueles nomes citados acima: você saberia definir cada sujeito de acordo com sua identidade de gênero e orientação sexual? Espero que não exatamente, já que esse texto não tem qualquer objetivo taxonômico definitivo. Essas categorias, no entanto, são “apenas” ferramentas sociais e biomédicas criadas em nossa cultura com o objetivo de tentar classificar e diferenciar as múltiplas expressões de gênero e sexualidade. Esses termos não conseguem dar conta dessa pluralidade, mas podem, de alguma forma, auxiliar na formação de identidades sociais e na elaboração de políticas públicas específicas.

Para o estabelecimento das categorias trans, por exemplo, alguns fatores se destacaram em como os indivíduos trans têm sido historicamente definidos e diferenciados, social e biomedicamente. Um desses fatores é a realização ou não da cirurgia de transgenitalização, ou seja, a cirurgia para a alteração dos órgãos genitais. Essa cirurgia tem sido comumente utilizada para diferenciar as transexuais, que desejam ou realizaram a cirurgia, das travestis, que não abririam mão do pênis. É importante ressaltar que a posse ou não do pênis ou da vagina não deve ser considerada elemento definidor da identidade de gênero.

É possível, por exemplo e portanto, que um indivíduo que se identifique como travesti tenha realizado a cirurgia genital, ou que uma autodenominada transexual ainda possua seu pênis. E os indivíduos transgêneros, quem são? Esse conceito é amplo e engloba pessoas em geral que não se identificam com o sexo biológico determinado no nascimento. Em outras palavras, travestis e transexuais seriam indivíduos transgêneros. Esse termo, curiosamente, não pegou muito no Brasil. Uma das razões seria sua constante associação com a palavra transgênico, referente a espécies animais ou vegetais alteradas geneticamente.

É importante notarmos que a autodenominação, ou seja, a forma como os indivíduos se autoclassificam em relação às suas identidades de gênero e orientações sexuais, tem exercido uma influência cada vez maior na produção de subjetividades e identidades psicossociais. As definições classificatórias biomédicas, presentes nos manuais diagnósticos e referência para a elaboração de políticas públicas, podem ser muitas vezes restritivas e censórias, excluindo as possíveis matizes dos gêneros além do binarismo homem-mulher. As definições e propostas de políticas oriundas dos movimentos sociais e de ativistas, por outro lado, assumem atualizações mais rápidas e costumam ser mais tolerantes às diversidades.

As transformações políticas e sociais nas considerações a respeito dessas e de outras identidades permitem que, através dos tempos, identidades sociais e categorias biomédicas sejam criadas, transformadas, incluídas e até mesmo extintas. As categorias e identidades só podem ser reconhecidas, no entanto, dentro de um contexto que admita sua existência, mesmo que essa existência apareça inicialmente através de sua exclusão nos discursos teóricos e nas práticas.

Eu costumo me definir, por enquanto, como um homem cisgênero homossexual. Não me sinto preso a esse rótulo, mas me sinto confortável nele. A identificação com alguma categoria preestabelecida pode trazer essa sensação de conforto, de encontro. Mas se nenhuma te define, tudo bem. A categoria dos não-categorizados está cada vez mais cheia e é também bem receptiva. Até a próxima!

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PLANTÃO

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