Nu masculino para todos com a benção do público

Projetos como o Flesh Mag desmitificam e ressignificam a arte acerca do quase inexplorado corpo masculino
Projetos como o Flesh Mag desmitificam e ressignificam a arte acerca do quase inexplorado corpo masculino

A nudez — principalmente a masculina, menos socialmente sexualizada do que a feminina — é um tabu na mídia, infelizmente tratado como um artifício sensacionalista ou indecente. Corpos em seu estado natural são considerados pornográficos e chocantes. De um tempo para cá, publicações independentes têm, com muita coragem e approach artístico, ressignificado este conceito, na maioria das vezes impulsionada pela força da estratégia de financiamento colaborativo.

A Flesh Mag, iniciativa dos fotógrafos cariocas Rafael Medina e João Maciel, é o mais recente exemplo deste tipo de estratégia para empoderar o nu masculino. Revista virtual criada para celebrar a diversidade do corpo masculino, a Flesh publica quinzenalmente ensaios de nus dos mais diferentes tipos de corpo, etnias e idades de homem. O projeto começou com investimento dos idealizadores e, com o aumento de audiência e engajamento dos leitores, Medina e Maciel viram que estava na hora de dar um upgrade na plataforma.

“Como o sucesso da Flesh se deu por conta do público, nada mais natural do que pedir ajuda a esse público para tornar o ambiente digital mais estável e profissionais”, explica Rafael Medina, que ainda completa: “Os R$ 11,3 mil que estamos captando são para investir no redesenho e na programação da nova revista. Que manterá a mesma energia provocativa, a mesma verve artística, mas com um punch mais profissional.”

O investimento no projeto não mexe só com o desejo de colaborar que toda a nossa geração traz: a partir de R$ 60, os impulsionadores ganham um calendário 2016 de parede, com projeto gráfico assinado pelo francês Claude-Olivier Four (cujo portfólio inclui trabalhos para a Opera Nacional de Paris e para a grife de luxo Louis Vuitton) com os “modelos” — gente como eu ou você, que nunca tinha posado antes, mas que venceu o tabu aceitando a aventura de posar como veio ao mundo para toda a sorte de admiradores na internet.

Nascido como um Tumblr chamado Flexões, o projeto do fotógrafo André Medeiros Martins também publicava fotos (algumas bem explicitas) de homens nus em suas mais variadas formas. Em meados do ano passado, Medeiros usou o Catarse para financiar um “livro-objeto”: cada financiador, escolhia uma “cota” (sarada; mignon; plus size; parruda) e, a partir disso, o fotógrafo compilaria imagens compatíveis ao tema que, junto com textos de bastidores, formaria um “livro individual”, desenvolvido à mão. Mais de R$ 11 mil foram arrecadados (a meta era R$ 10 mil).

Enquanto o Flexões  e a Flesh Mag exaltam a diversidade de corpos, o calendário anual dos remadores da Universidade de Warwick celebra a beleza em sua forma mais comercial e dentro dos padrões. Os meninos fotografados, parte do time de remo de uma das universidades mais tradicionais da Inglaterra, são jovens e atléticos. O projeto, que afirma lutar contra a homofobia e pregar a intimidade e a naturalidade entre homens, também está sendo captado por crowdfunding e ganhou repercussão mundial: para divulgá-lo, os meninos fizeram uma visita promocional aos Estados Unidos, onde participaram de alguns dos principais programas de entrevista do país. Além de financiar o calendário, o projeto banca as atividades do clube de remo, a manutenção dos equipamentos e investe em ações de caridade contra homofobia nos esportes (confira o vídeo do making of aqui).

O crowdfund também foi o caminho encontrado por Gianfranco Briceño, peruano radicado em São Paulo, para financiar sua revista de nu artístico masculino, a “Snaps”: “A ideia é fotografar rapazes normais, do dia a dia. Eles não são modelos profissionais, mas são jovens e bonitos”, explicou Briceño em entrevista recente na Dazed & Confused, quando conceituou que a revista também funciona como plataforma de expressão para a comunidade homossexual brasileira: “O Brasil é um país hedonístico e homofóbico. A ‘Snaps’ é uma ferramenta na luta dos gays para saírem do gueto e poderem ser livres, sem tabus ou vergonha”.

A quarta edição da revista — que arrecadou 40% mais do que a meta — está pronta para ir para a gráfica. Prova que o nu masculino está calcando novos caminhos além do tabu que insinuamos no começo desta reportagem.

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PLANTÃO

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