Um desabafo sobre a criminalização do funk na favela e a glamurização em festivais cool

Em vídeo, Kdu dos Anjos confronta morte de menino em baile de comunidade ao mesmo tempo que o estilo era celebrado em evento hypado
Em vídeo, Kdu dos Anjos confronta morte de menino em baile de comunidade ao mesmo tempo que o estilo era celebrado em evento hypado

Cena 1: o “Fantástico”, da Globo, exibe reportagem sobre uma ideia lançada na página do Senado que pede a proibição e a criminalização do funk em todo o país e que, com 22 mil apoios, pode virar projeto de lei a qualquer momento. Cena 2: o grupo multiartístico Lá da Favelinha, da comunidade Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, faz patys e plays rebolarem com seu rap, seu funk e seus outros sons marginais no festival chiquezinho Meca, realizado no hypado centro de artes Inhotim com ingressos a até R$ 390. Cena 3: um baile funk no mesmo Aglomerado da Serra é interrompido a tiros com a chegada da polícia. Na confusão, um garoto de 14 anos é baleado e morto.

Como num filme de roteiro complicado, as três cenas aconteceram exatamente ao mesmo tempo, no último domingo (9), e resumem, cada uma ao seu modo, a relação esquizofrênica que o nosso país tem com suas manifestações culturais populares.

Eternamente comparado ao samba por suas origens negras, faveladas e contraculturais — mas, principalmente, pela perseguição policial e as constantes ameaças de proibição, algo que o samba sofreu nas suas décadas iniciais —, o funk é só o bode expiatório da vez. Ou, em outras palavras, a vítima preferencial do preconceito de uma sociedade que despreza o que vem “de baixo”, idolatra tudo o que é cantado, falado ou escrito em língua estrangeira (principalmente o inglês) e não termina de se reconhecer como mestiça e verdadeiramente multicultural.

Romário deverá ser relator

A ideia que pode derivar em projeto de lei partiu de um empresário paulista identificado como Marcelo Alonso. Ele mantém páginas em redes sociais e websites coalhadas de mensagens antifunk. Uma delas, “Funk é lixo”, tem mais de 130 mil curtidas. Se vingar, a proposição (que cumpriu o protocolo para sugestões de projetos de lei populares, superando os 20 mil apoios na página do Senado) tramitará na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa, com possível relatoria do senador Romário (Podemos-RJ). Procurado nos últimos dias para dar alguma declaração sobre o tema, o ex-jogador, que aparece em diversos vídeos na web cantando funks e ao lado de personalidades do gênero, tem se esquivado. Especula-se, porém, que, apesar de convocar uma audiência pública para debater o tema, ele deverá rejeitar a ideia.

Antropólogos, estudiosos da cultura e, principalmente, cantores, autores e grupos de funk denunciam uma perseguição seletiva e racista. “Eu nasci no Rio de Janeiro. Cresci ouvindo funk desde que me entendo por gente. Vivi minha adolescência em bailes, e isso nunca me tornou uma pessoa pior. Muito pelo contrário”, disse Valesca Popozuda. “Vinte e dois mil desinformados estão precisando sair do conforto dos seus lares para conhecer um pouquinho mais do nosso país”, completou Anitta. “As letras dos raps americanos são muito piores, mas com essa indústria milionária ninguém se atreve a mexer”, espetou Mr. Catra.

A queixa de quem defende a proibição — a existência dos proibidões, letras que mencionam armas, drogas, violência e trato degradante à mulher — tampouco encontra amparo entre os que de fato conhecem a cena do funk. As músicas, sustentam estes, simplesmente retratam a complexa realidade social brasileira, não fazem apologia dela. “O funk fala de crime porque ele está inserido naquela realidade. Ele é espelho de um problema social muito maior”, explica o jornalista Renato Barreiros, diretor do documentário “O Fluxo”, sobre a cena funk em São Paulo. “Os principais bandidos do Brasil nunca frequentaram um baile funk. Basta ver as delações premiadas”, ironiza.

A antropóloga Milene Mizhari faz coro: “O argumento de quem pede a criminalização é que o funk não é cultura. Então, o que é? Cultura é algo vivo, em transformação o tempo inteiro, que fala da vida das pessoas.”

Em seus constantes posts contra o funk no Facebook, o empresário paulista autor do pedido de proibição alega ainda que o gênero faz apologia ao extermínio de policiais. Um detalhe que seria irônico se não fosse trágico. No baile funk do último domingo, no Aglomerado da Serra belo-horizontino, a morte do menino de 14 anos é atribuída por moradores a disparos da polícia. Procurada, a Secretaria de Segurança Pública de Minas Gerais não respondeu aos pedidos de informações sobre as investigações do caso.

Um problema muito maior

Enquanto isso, Kdu dos Anjos, cofundador e líder do grupo Lá da Favelinha, que se apresentava em Inhotim durante o tiroteio, postou um videodesabafo no Facebook que já conta centenas de compartilhamentos. Nele, denuncia a perseguição sistemática por parte da polícia e comenta o preconceito das mesmas pessoas que, durante o festival hypado, dançavam ao som do funk: “No início, nos trataram meio estranho. Isso dói muito. O funk está sendo discriminado, pisoteado e bombardeado.”

A denúncia de perseguição dos agentes do Estado é só um sintoma de um problema maior: o verdadeiro genocídio praticado pelas policiais brasileiras em comunidades carentes, denunciado repetidas vezes por ONGs como Anistia Internacional e até mesmo pela ONU. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública a partir dos dados de cada um dos 26 estados da federação e do Distrito Federal, as nossas polícias mataram 3.345 pessoas em 2015 (os dados do ano passado ainda não foram totalmente compilados).

Enquanto isso, 393 policiais foram mortos no mesmo período, sendo que 290 deles estavam fora de serviço. A taxa de letalidade da nossa polícia é de 1,6 pessoas a cada grupo de cem mil habitantes, superior à de países como Honduras e África do Sul, que têm índices totais de assassinatos muitíssimo maiores que os nossos. A conclusão é óbvia: a suposta resposta policial à violência urbana é desproporcional e contribui enormemente para a cadeia de mortes.

O Rio de Janeiro, por exemplo, onde estão disponíveis dados mais recentes, viveu um salto espantoso de 42% no número de pessoas mortas por policiais no ano passado em relação a 2015. Foram 920, contra 645. O índice se aproxima outra vez do pior ano da série histórica: 2007, antes da implantação das UPPs, quando 1.330 pessoas foram mortas pela polícia. O perfil dos mortos diz tudo: segundo dados do próprio Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, 77% das vítimas eram negros e pardos.

Curiosamente, o Estado de Minas Gerais, palco do tiroteio do domingo, não divulga isoladamente os números de mortes por policiais, e não se sabe se haverá uma investigação isenta da morte do garoto de 14 anos denunciada por Kdu dos Anjos. Em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo” há alguns meses, o secretário de Segurança Pública de MG, Sérgio Barboza Menezes, culpou indiretamente a crise pelo aumento nos índices de violência, inclusive por parte de policiais. “Se os policiais estiverem recebendo salário em dia, tenho otimismo de que a gente pode tentar reduzir a violência”, disse.

Com crise ou sem ela, quem vive a realidade das favelas garante que o preconceito e a discriminação independem de bons ou maus resultados na economia. São constantes e seculares. “O preconceito é palpável, é presente. Acontece menos comigo por eu ser mais branquinho e ter olho claro”, diz Kdu. “Mas os mais negros e mais pobres são vítimas o tempo todo.”

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PLANTÃO

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