Arcade Fire cria sites e entrevistas falsos para gerar buzz em torno do álbum ‘Everything now’

Subvertendo a lógica das 'fake news', banda canadense surpreende, mas não inova. Formato é novo; a estratégia, nem tanto
Subvertendo a lógica das 'fake news', banda canadense surpreende, mas não inova. Formato é novo; a estratégia, nem tanto

Estava demorando para algum nome hypado da cultura internacional usar a enxurrada de fake news da web em proveito próprio. O Arcade Fire fez isso e criou uma série de notícias “de mentirinha” — como a “prova” da ligação da banda com grupos extremistas ou “entrevistas” e “resenhas” em grandes portais de notícias adulterados. Tudo para gerar buzz em torno de “Everything now”, seu mais novo álbum, uma crítica à sociedade de massas hiperconectada, consumista, alienada, superficial, entregue na última sexta-feira (28).

Deu certo, fez barulho e abriu sorrisos entre os fãs da banda canadense (que virá a Rio e São Paulo em dezembro, com a turnê “Infinite Content”), mas não foi, de modo algum, uma estratégia nova. Na era da pós-verdade e da popularização de softwares e aplicativos de design, usar falsas páginas on-line de grandes jornais ou portais tem verniz bem contemporâneo. Mas bem antes já havia quem mentisse descaradamente em outras mídias com propósitos específicos — nem que fosse puramente o de se divertir.

No rádio

Um dos casos mais famosos foi protagonizado pelo futuro diretor de cinema, roteirista e ator Orson Welles em 1938, nos Estados Unidos. A fim de testar seus dotes como escritor de ficção, ele usou um programa de rádio em Nova York para narrar uma suposta invasão da terra por marcianos, ao vivo. Gritos de pavor, sons de acidentes de trânsito, fartos barulhinhos de ETs e naves foram empregados na dramatização, que Welles chamou de “A guerra dos mundos” e que o colocou no panteão dos grandes da ficção estadunidense. A lenda do impacto que a transmissão provocou na população, porém, é, ela mesma, fake news. Segundo o diário britânico “The Telegraph”, a comoção que teria sido criada há quase 90 anos, com escassos meios de confrontação da informação, é exagerada.

O mito em torno de “A guerra dos mundos” prega que pessoas se jogaram de pontes, que as ruas foram tomadas por multidões em desespero e que as linhas da polícia de Nova York ficaram congestionadas com tantas ocorrências criminosas, mas investigações do “Telegraph” mostraram que não há registros de nada disso e que, mesmo na época, a maioria dos ouvintes soube entender que presenciava uma narração ficcional.

Mas que atingiu seu objetivo em cheio: encheu as salas para o lançamento do primeiro média-metragem de Welles, “Too Much Johnson”, lançado no mesmo ano, e gerou enorme expectativa antes da entrega do primeiro longa, três anos depois: “Cidadão Kane”, um dos maiores filmes da história do cinema e vencedor do Oscar de melhor roteiro, coescrito pelo próprio Orson Welles.

No jornal

Décadas antes, o extinto jornal dos Estados Unidos “The Sun” (não confundir com o tabloide homólogo britânico) publicou uma bomba: a descoberta de vida alienígena na Lua. Foi em 1835, mais de um século antes da chegada do homem ao nosso satélite natural, em 1969 (chegada essa que foi repetidamente acusada de fake news por teóricos da conspiração).

De acordo com o portal americano hoaxes.org, que congrega milhares de mitos difundidos mundialmente ao longo dos séculos, o autor do texto, um certo “Dr. Andrew Grant”, seria, na verdade, o jornalista Richard Adams Locke, que sempre negou sua participação na notícia falsa da “descoberta” de criaturas vagando sobre o solo lunar. A fonte das “observações” foi atribuída ao astrônomo (de verdade) John Herschel, que igualmente negou com veemência ter observado qualquer alienígena por lá, mas cuja reputação chegou a ficar arranhada pelo episódio.

O jornal, este sim ganhou (a princípio): experimentou um enorme salto nas vendas. Eventualmente, certamente por usar expedientes similares, caiu em descrédito e teve de deixar de circular… Entendeu?

Em livros históricos

Textos medievais frequentemente mencionavam uma certa papisa chamada Joana. Segundo a lenda, seria uma mulher que chegou a chefiar a Igreja Católica por dois anos, entre os anos de 853 e 855 da nossa era, depois de ter mentido literalmente a Deus e ao mundo sobre seu verdadeiro gênero. Desejosa de prosseguir nos estudos, ela se fez chamar João Anglicus e viajou a Atenas onde teria se tornado “um” reputado teólogo e cientista. Ascendeu a cardeal, acumulou cada vez mais respeito no mundo católico, mudou-se para Roma e, num conclave após a morte do papa Leão IV, bingo: Joana virou João VIII.

Tudo ia bem até que um dia o papa precisou dar uma paradinha básica na beira da estrada, durante um deslocamento da Basílica de São Pedro para o Palácio de Latrão — edifício monumental da Roma antiga convertido em residência papal — para… dar à luz um bebê. Aí entram em desacordo os textos medievais: uns sustentam que, desmascarada, Joana foi amarrada a cavalos para ser esquartejada viva por heresia; outros, que foi apedrejada até a morte; outros, que foi exilada num convento distante e que seu filho se tornou bispo…

O fato é que, ao se debruçar sobre a lenda — a princípio admitida no próprio Vaticano —, historiadores descobriram que as primeiras referências a ela só surgiram entre os séculos XIV e XV, quando o movimento anticatólico começou a ganhar força, principalmente no Norte da Europa. De modo que a história da mulher herege que chegou a ser papa teria, mesmo, sido usada como arma das incipientes religiões protestantes para “denegrir” a Igreja.

Na Bíblia

Se, até o século XIX, poucas vozes, mesmo na ciência, se faziam ouvir publicamente para questionar as “sagradas” escrituras, hoje é consenso entre estudiosos que trechos inteiros do Antigo e do Novo Testamento têm paralelismos evidentes com textos muito mais antigos, do início da civilização, sem ter sido, portanto, “inspirados” por Deus aos profetas judeus e cristãos.

Um dos primeiros dissonantes sobre esse tema foi o teólogo alemão e acadêmico Wilhelm Martin Leberecht de Wette. Num minucioso trabalho em meados do século XIX, ele encontrou muitíssimos trechos do Antigo Testamento iguaizinhos a mitos clássicos compilados pelo grego Homero (que, até onde se sabe, não lia em hebraico e não conhecia a Torá). Em 1892, o bispo anglicano britânico Herbert Edward Ryle, escritor e teórico religioso, associou claramente os primeiros livros do Antigo Testamento às narrações babilônicas sobre a criação do Universo, com correções deliberadas para adaptá-los ao monoteísmo.

As primeiras linhas do Gênesis (“No princípio Deus criou os céus e a terra… […] E disse Deus: faça-se a luz…”) estariam, segundo ele, ipsis litteris, em pergaminhos encontrados na região onde hoje é o Iraque e escritos milhares de anos antes da “inspiração” divina da Bíblia. A razão da “pedalada” aqui seria clara: promover a cosmovisão judaico-cristã, espalhar “a palavra” dos líderes de sociedades primitivas e contribuir, assim, para manter o controle social.

O que nos leva de volta ao primeiro parágrafo, e ao século XXI, quando, três milênios depois, um certo governante de uma potência do Norte dissemina fake news pelas redes sociais para exercer também controle sobre seus igualmente primitivos seguidores/eleitores. A história se repete. E, com frequência, dá uma preguiça ver…

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PLANTÃO

Brilho, brilho e mais brilho. Caros leoninos, vejam o que @aroundandabout2 diagnosticou para vós: https://t.co/InAVF7nbCO.

Da onde vêm as fake news do @arcadefire? Alessandro Soler, editor do #TNFP1980, te conta: https://t.co/5EYFuDP1Xy

Ouça e leia a #Mixframe de julho em: https://t.co/zTYnoriLpY. Música do dia: https://t.co/XQ86eX0tKi (by @MysticBraves). #gotamix #TNFP1980

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