Vaporwave emula iconografia capitalista e imaginário da internet

Articulista decodifica o movimento musical representado por cores fluor e defeitos especiais
Articulista decodifica o movimento musical representado por cores fluor e defeitos especiais

Ligo a CPU do meu computador e os ruídos de uma engenhoca tecnológica altamente sofisticada soam arranhando discos e discos. Sinto o HD relutando em despertar para, então, iniciar magistral em sinfonia angélica e imagem celeste. Meu mundo gráfico é povoado por seres da grafia Geocities e Windows, elementos da cultura clubber, golfinhos, extraterrestres, pentagramas, trechos de peças publicitárias dos anos 1980 e 90. As cores são flúor-berrantes; as texturas, pixeladas em tramas tribais psicodélicas.

Me reconheço nostálgico em paisagens sonoras líricas, desconexas, marcadas por loopings, reduções de velocidades, reverbs, ecos, dissonâncias, compressões e samples de hits de música pop. Não se trata de uma releitura de “As portas da percepção”, de Aldous Huxley, narrando experiências lisérgicas com LSD. Apenas estou na metade da segunda década do século XXI e meu nome é Vaporwave.

A saturação das imagens é proposital e poderia ser o traço definidor deste movimento rascunhado há dois anos no Japão e nos Estados Unidos, que vem ganhando cara de subcultura dentro da internet. No entanto, são as contradições do capitalismo global que marcam a pauta criativa dos artistas do Vaporwave, também conhecido como “chillwave para marxistas”, “pós-música de elevador” ou ainda “corporate smooth jazz Windows 95 pop”.

O vaporwave abusa da informação sensorial em alta definição amalgamada com programações sonoras low-fi, como áudios de curso de inglês em fitas cassetes e sons ambiente. Não existe limite para a intrigante sensibilidade artística de músicos como Fatima Al Qadiri, James Ferraro, Gatekeeper, INTERNET CLUB e Macintosh Plus. E é no seio de seus experimentos artísticos que se identifica uma espécie de crise de identidade que marca as representações da vida contemporânea e que norteia o pensamento crítico desde os anos 1990.

Ao refletir sobre identidades culturais na pós-modernidade, o sociólogo jamaicano Stuart Hall, morto em fevereiro, defendeu que os velhos modelos — por tanto tempo, os estabilizadores do mundo social — estariam em declínio, permitindo surgir novas e fragmentadas formas de indivíduo moderno. Para ele, esta “crise de identidade” seria parte de um processo mais amplo de mudanças, nas quais as estruturas e processos centrais das sociedades modernas estariam se deslocando e abalando os antigos quadros de referências.

Uma espécie de colapso que fragmentava as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade. Mais de 20 anos depois, movimentos como o Vaporwave mostram que o colapso então eminente preconizado por Hall ganhou contornos de banalidade, tornando-se imanente à realidade. Assim, neste ambiente de contínuo estupro imagético, o tosco torna-se lugar comum e dilui-se em combinações de estátuas gregas com gráficos da linguagem HTML, compondo um novo classiscismo transgênero universal histriônico.

A desconstrução e a ressignificação de conceitos marcantes da geração Vaporwave já extrapolam os limites da internet, tornando-se um elemento de sub (ou contra) cultura, que começa a desenhar um novo estilo de vida urbano para além de modismos e tendências de momento, como o Seapunk e o Witchouse (vertentes mais conceituais da chillwave de músicos como Ariel Pink e Panda Bear). Aos poucos, esta estética da fragmentação saturada ao extremo de sua contradição se vê refletida na moda, na videoarte, nos videoclipes e na construção de um ethos próprio de nosso tempo.

O cenário pós-apocalíptico e profundamente mórbido resultante destas aberrantes simbioses iconoclastas pode ser pensada a partir de outro conceito que encontrou eco na voz de filósofos como como François Lyotard, Gilles Deleuze, Félix Guattari, e de forma mais alarmante no discurso de Nick Land: o aceleracionismo. O termo indica que a dissolução da civilização forjada pelo capitalismo não deve e não pode ser combatida, mas acelerada o tanto quanto possível, para irromper na insanidade e na violência anárquica que seria o seu fim inevitável.

É para este conceito que apontam o sarcasmo e a ironia visivelmente orquestrados nos trabalhos destes artistas do Vaporwave. A partir destas abordagens filosóficas, podemos sugerir uma tentativa de pensar a respeito do Vaporwave e de que representações de nossa realidade o movimento tenta dar conta. Com lente high-tech e empregando uma estética 3D pornô-vintage, a kwaitiana Fatima Al Qadiri vira ao avesso a cultura rap com as cenas oníricas de “Hip hop spa”. Há ainda todo o álbum “Far side virtual”, do novaiorquino James Ferraro, que chacoalhou o mundo da musica eletrônica experimental em 2011 juntando detritos digitais em uma ode irônica ao macho capitalista de olhos azuis.

Em duas entrevistas na época, Ferraro qualificou seu próprio trabalho como “ópera para nossa civilização de consumo” e “16 ringtones para você baixar”. As declarações do músico captam perfeitamente como o Vaporwave se constitui sendo um produto mercantilizável do próprio sistema tecnofuturista do qual ele se serve. Vaporwave, cujo nome é uma referência ao termo “vaporware”— produtos que não existem, mas são lançados como estratégias de marketing de empresas de tecnologia para gerar factoides — deve continuar produzindo vapor em muitos lugares, se transmutando e adquirindo novas texturas como nos vídeos. Sua não-linearidade está aparentemente sincronizada com as forças que movem nosso mundo, engastado pela onipresença de imagens em HD sodomizando nosso apetite insáciavel por exposição.

Em última análise, ainda não podemos saber quais as reais contribuições que esta possível “pop-arte aceleracionista” trará ao entendimento de nosso zeitgeist. Podemos nos sentir impotentes, perplexos, superestimulados ou apenas emocionados e alegremente letárgicos. Podemos nos ver refletidos neste caleidoscópio a cujas formas nos acostumamos a ser manipulados, arrastados e constantemente reconfigurados, seja por vontade própria ou pela violência sedutora da cultura contemporânea. Mas o Vaporwave está aí para nos perguntar se aceitamos ou rejeitamos o status do nosso presente e a imagem de futuro que ele evoca.

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PLANTÃO

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