Último clipe da Banda Maldita tem sangue e clima apocalíptico

Letras do quarteto liderado por Erich Eichner são metáfora de uma sociedade em decomposição
Letras do quarteto liderado por Erich Eichner são metáfora de uma sociedade em decomposição

Tem muito sangue na tela num clipe da Maldita, a banda carioca de metal. E não é só o cênico. O sangue aqui é metafórico, metafísico, é o sangue de uma turma que dá tudo para manter viva uma cena fora da curva na terra dos axés, sertanejos universitários, arroxas, mulheres frutas e outras delicatessens estéticas que são coisa tão nossa. Último produto audiovisual lançado pelo quarteto liderado por Erich Eichner, “La belle indifférence” ajuda a consolidar a imagem sem concessões da Maldita, cujas canções são coalhadas de críticas sociais, comportamentais, com pitadas de existencialismo e citações literárias. Estrelado pelo ator Carmo Dalla Vecchia, o vídeo tem produção caprichada e marca a entrega por etapas dos clipes de singles do último álbum da banda, “Estranhos em uma terra estranha”, o primeiro com participação do covocalista Fernando Crazy, que já havia atuado no EP “Montagem”, de 2012.

Ao mesmo tempo, a Maldita trabalha no seu próximo disco, ainda sem previsão de lançamento, e que, com o sugestivo nome “L.U.C.I.F.E.R.” e clima pós-apocalíptico, poderia perfeitamente descrever o momento social, político e econômico vivido pelo país. É o que explica Erich em entrevista ao TNFP.

Como você define esteticamente a banda? A base metal é coalhada de brincadeiras, como o batidão funk. É metal tropicalizado?

Erich Eichner: A Maldita tem, sim, algumas doses de senso de humor (negro), no sentido de que apresentamos uma versão distorcida da realidade à nossa volta. Isso pode parecer lúgubre para uns, mas para outros, mais céticos, pode parecer engraçado. Geralmente flertamos com elementos surrealistas — sonoros e estéticos. Entretanto, quando lançamos nosso EP de funk, o “Montagem”, foi um de nossos trabalhos com menos senso de humor e com mais mensagens de críticas sociais, como por exemplo a destruição do meio ambiente. Não considero a Maldita metal tropical, infelizmente, pois não costumamos inserir muitos elementos rítmicos ou musicais que remetam ao nosso Brasil, como faz, por exemplo, o Sepultura. É algo que deveríamos explorar mais no futuro.

Como é a reação dos gringos quando uma banda como a de vocês, do Rio de Janeiro (que habita um lugar específico no imaginário coletivo mundial), se apresenta lá fora?

Apesar de o nosso som não remeter muito ao Brasil, de um modo geral os gringos piram porque a gente ataca com um swing um pouco diferente. Já fizemos duas turnês internacionais passando por lugares como Polônia, República Tcheca, Portugal, Holanda, Bélgica e Finlândia, e a receptividade é sempre calorosa. Apesar de o metal estar sendo engolido pelo pop, uma música serializada e de mais fácil entendimento, a cena no exterior permanece forte, e são todos muito interessados em bandas novas, underground e de lugares exóticos como o Brasil.

Em relação ao mercado interno, como é produzir metal na terra dos arroxas e sertanejos universitários?

Cada vez mais complexo. Infelizmente, não somente no Brasil como no mundo, as pessoas estão ficando cada vez mais vazias e apegadas ao óbvio no que toca ao showbiz. Então, isso distancia do pódio a ideia de uma banda conceitual perfurar a camada mais superficial e atingir o mainstream. No Brasil não poderia ser diferente. É difícil, sempre foi, mas tenho muito orgulho dos nossos fãs, que se interessam pelos temas literários ou históricos que costumo abordar em nossas músicas, assim como pelos questionamentos e pelo existencialismo que proponho e que vão além das abordagens mais banais, como amor, balada e Redbull no gelo, tão costumeiramente mencionados pelos sertanejos. Temos muito orgulho e temos consciência de que não fazemos parte de uma moda específica ou de uma fase da adolescência. Somos artistas e, sendo assim, fazemos o que achamos que devemos fazer, direto do coração.

O metal é, de fato, um dos estilos que mais mantêm seus fiéis fãs ao longo dos anos. A que atribui isso?

O metal, assim como a world music, tem características que, para os fãs, beiram a experiência sobrenatural ou religiosa. Creio que é dessa seara mística que sai a devoção do fã que capta e se identifica com aquilo. Tem shows da Maldita em regiões no Nordeste e também em São Paulo que, às vezes, se parecem mais com cultos do que com uma noite de entretenimento. É muito intenso e muito gostoso também fazer parte disso. Na música pop também podemos enxergar isso, o público idolatra seus ídolos como se fossem santos, ou até mesmo “deuses”; entretanto, tem algo de diferente: não se deve confundir histeria coletiva ou viral no YouTube com respeito e admiração pela arte.

As letras de vocês fazem verdadeiras crônicas sociais, filosóficas, salpicadas de um olhar “noir”. Casam perfeitamente com a situação político-social do país. O momento que vivemos os inspira de alguma forma?

Sim, casam, sim. Estamos gravando um novo disco agora, e o seu titulo é “L.U.C.I.F.E.R.”. Trata-se de uma metáfora sobre o dia seguinte ao apocalipse que, para mim, é o dia de hoje no Brasil. A estética do álbum será a de um diabão (na forma de um gato) usando um terno vermelho de alta costura, bastante elegante e que nos testa para saber até onde vai o nosso talento de enganar e as consequências de vender a alma, crime pelo qual alguns “queridos” já estão pagando, mofando atrás da porra de uma grade. Esteticamente é algo que lembra bastante o filme “Advogado do Diabo”, com Al Pacino e Keanu Reeves, só que com menos glamour de Hollywood e mais da realidade triste brasileira.

Já há letras e canções produzidas para o quinto álbum?

Temos alguns títulos prontos, como “A mente mente”. Fiquem atentos, pois, assim como o Anjo Caído, nossa ideia é nos erguermos do subsolo com uma banda de rock iconoclasta que vem para destruir a música pop — e, quando falo de música pop, não estou me referindo à Madonna ou à Beyoncé não, tá? Estou me referindo, antes, às músicas sem nenhum atributo artístico.

Se tivesse que fazer uma música sobre algum personagem desse espetáculo tragicômico, essa estranha catarse que estamos testemunhando, quem seria?

Olha, eu sempre tive muito medo do Eduardo Cunha. Essa figura de homem satânico blindado por um culto de evangélicos sempre me intrigou bastante. Ele é assombroso e poderia muito bem ser citado em alguma música, uma que começasse com aquela melodia fantasmagórica da Telerj. O título poderia ser bem sórdido, algo como, sei lá, “A pata do macaco”.

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